Se eu fosse você, aproveitava e dava aquela espiada no blog dela: Confessionário
Aqui nesta pequena cidade onde o sol parece sempre nascer sorrindo, exceto em época de chuva, tudo parece não mudar, exceto também em época de chuva.
As ruas aqui são planas, exceto onde eu moro. E em época de chuva, posso ver a água correr pela sargeta com velocidade maior que todas as outras ruas da cidade.
É comum chover aqui, talvez mais comum que o sol nascer sorrindo.
Quando chove no fim de tarde, as mulheres correm com as roupas tiradas no varal, as crianças param de brincar e os homens voltam mais cedo pra casa.
Da minha casa, aquela que fica na rua que não é plana, dá pra ver que todos se escondem atrás de vidros gelados enquanto as gotas gordas fazem subir o cheiro da terra.
- Credo essa chuva!
- Todo ano a mesma coisa...
- Que horror!
Mas da minha casa, na rua que não é plana, dá pra ver a praça da igreja. E na praça da igreja, quando sobe o cheiro de terra molhada, aparece uma moça que não está fugindo pra se esconder em casa, atrás dos vidros gelados.
Quando o Sol não nasce, sorridente, e a chuva se derrama na praça a moça vem com balde e bucha. Sobe no banco e começa a se lavar. Atrás dos vidros gelados todos acham maluca, a moça que toma banho de chuva.
A moça, maluca, só canta e se banha. Canta um som de gotas gordas e frescas. Ela gira pra um lado e pro outro e se estica e abaixa para lavar entre os dedos. E dança e canta a moça maluca. Tomando banho de chuva.
Olhando a moça maluca banhando-se na praça ao som das gotas gordas, eu sinto no peito uma taquicardia misturada com agonia de quebrar o vidro gelado e atravessar a sanidade para dançar pela sargeta, onde a água corre mais depressa e numa grosseria de movimentos, até então desconhecida, me molhar para todos os lados, mesmo que se mude a direção. E sigo, enlouquecendo, o quanto me for permitido. Dançando e cantando gotas de banho na chuva gorda. Eu venho dançar com a moça maluca e cantando eu lhe pergunto:
- Moça linda! Posso dançar contigo? Posso?
Ela sorri, encharcada. Eu insisto:
- Por que se banha aqui fora, amor? Por que toma banho na rua? Se não tiver casa, podes vir morar na minha!
A moça maluca parou de dançar, olhou para alto sentindo as gotas gordas caírem na sua face, estendeu os braços e abriu as mãos como se conseguisse segurar cada gota que caía e disse ao alto:
- O que chamas casa? Paredes e janelas? Portas e vidros gelados? Não, essa casa eu não tenho não!
Depois virou-se para mim com gotas gordas escorrendo pela face:
- Onde moro, todo dia é primavera, das portas eu vejo o horizonte, das janelas ouço desejos, do quintal sinto a liberdade que palpita no peito.
Deu alguns passou para trás e com um enorme sorriso finalizou:
- Minha vizinha é a felicidade, que tem me dado bola e anda disputando lugar com a alegria que mora ao lado, mas elas que se resolvam, porque eu quero as duas! Na minha casa tem de tudo, só não tem chuveiro. Mas com essas gotas gordas, quem é que precisa de um? A pele se limpa com água e sabão e qualquer bica serve. A pele se limpa com facilidade. Mas a alma não pode ser lavada em chuveiro, nem tanque, caneca ou balde: pra limpar a alma é preciso rio, mar e cachoeira. Ou chuva! Uma chuva boa de gotas gordas, que caem na pele e se enfiam pelos poros! Uma chuva como esta!
E sorrindo, encharcada, me estendeu a mão:
- Vem comigo!

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